Guerra civil e revolução

domingo 23 de Janeiro de 2005, por frank, Goldbronn Frédéric

GUERRA DA ESPANHA / HISTÓRIA
A revolução em vermelho e negro "Concluída a fase violenta da revolução, serão declarados abolidos a propriedade privada, o Estado, o princípio da autoridade e as classes, que dividem os homens em exploradores e explorados, em opressores e oprimidos", decidiram os anarquistas em maio de 1936 Frédéric Goldbronn e Franck Mintz*

Numa hora em que, no altar do consumismo, até os perfumes invocam um toque anarquista, 1 fica difícil imaginar a dimensão da revolução libertária travada pelos trabalhadores espanhóis nas zonas onde enfrentaram o golpe militar dos generais contra a República em 1936. "Nós, anarquistas, não fomos à guerra pelo prazer de defender a república burguesa (...). Não, se
pegamos em armas foi para levar à prática a revolução social", 2 lembra um ex-miliciano da Coluna de Ferro. 3 A coletivização de consideráveis setores da indústria, dos serviços e da
agricultura constituiu um dos traços mais marcantes dessa revolução A coletivização de consideráveis setores da indústria, dos serviços e da agricultura constituiu um dos traços mais marcantes dessa revolução. Foi uma opção decorrente da enorme politização da classe operária, onde estava enraizada, e foi organizada principalmente pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT, anarco-sindicalista) e, em menor escala, pela União Geral dos Trabalhadores (UGT, socialista).

Ação direta, sem "chefes"
Numa Espanha que tinha, na época, uma população de 24 milhões de habitantes, o sindicato anarquista contava com mais de um milhão de associados e — fato único na história do sindicalismo — somente um recebia uma remuneração em caráter permanente. Pouco antes do golpe militar de 18 de julho de 1936, o congresso da CNT, em Zaragoza (no mês de maio) aprovara uma moção clara sobre sua concepção de ação sindical: "Concluída a fase violenta da revolução, serão declarados abolidos a propriedade privada, o Estado, o princípio da autoridade — e, conseqüentemente, as classes, que dividem os homens em exploradores e
explorados, em opressores e oprimidos. Socializada a riqueza, as organizações dos produtores, finalmente livres, se encarregarão da administração direta da produção e do consumo." 4
Num país de 24 milhões de habitantes, o sindicato anarquista tinha mais de um milhão de associados e só um recebia uma remuneração em caráter permanente Esse programa foi posto em prática pelos próprios trabalhadores, sem ficarem esperando por algum tipo de ordem de seus "chefes". A cronologia dos acontecimentos na Catalunha dá um bom exemplo
disso. Em Barcelona, os comitês dirigentes da CNT convocaram a greve geral de 18 de julho de 1936, porém sem a palavra de ordem da coletivização. Ocorre que no dia 21 de julho, os ferroviários catalães coletivizaram a estrada de ferro. No dia 25, foi a vez dos transportes urbanos, bondes, metrô e ônibus; no dia 26, a eletricidade e no dia 27, as agências
marítimas. A indústria metalúrgica foi imediatamente reconvertida para a fabricação de carros blindados e granadas para as milícias que iriam combater na frente de Aragão. Resumindo: em poucos dias, 70% das empresas industriais e comerciais tornaram-se propriedade dos trabalhadores - numa Catalunha que concentrava dois terços da indústria do país. 5
Uma cidade "mais nobre e mais feliz"
Em sua Homenagem à Catalunha, George Orwell descreve essa euforia revolucionária: "O aspecto surpreendente de Barcelona superava todas as expectativas. Foi seguramente a primeira vez na minha vida em que me encontrava numa cidade onde a classe operária havia tomado o poder.
Praticamente todos os prédios importantes haviam sido tomados pelos operários e, no topo de todos eles, tremulavam bandeiras vermelhas, ou vermelhas e negras, dos anarquistas. (...) Todas as lojas e cafés tinham um cartaz informando a sua coletivização; até os engraxates, cujas caixas, pintadas em vermelho e negro, anunciavam que tinham sido coletivizadas!
(...) Tudo isso era estranho e emocionante. Muita coisa, eu não compreendia e, até certo ponto, me desagradava: mas o fato é que havia ali alguma coisa que, de imediato, me pareceu valer a pena lutar por ela." 6 Em poucos dias, 70% das empresas tornaram-se propriedade dos trabalhadores — numa Catalunha que concentrava dois terços da indústria do país Foram
inúmeros os estrangeiros que, como Franz Borkenau, experimentaram esse "formidável poder de atração da revolução". Em Spanish Cockpit, 7 ele conta o caso de um jovem empresário norte-americano — cujos negócios tinham sido praticamente arruinados pela revolução — que, apesar de tudo, continua simpatizando com os anarquistas, a quem admira pelo desprezo que
têm pelo dinheiro. Recusa-se a ir embora, pois "ele ama esta terra e pouco se importa — as palavras são suas — se perdeu seus bens, já que a velha ordem se afunda para dar lugar a uma cidade mais humana, mais alta, mais nobre e mais feliz".

Salário igual para todos
O movimento da coletivização pode ter envolvido de um milhão e meio a dois milhões e meio de trabalhadores, 8 mas é difícil ter dados precisos: não existem estatísticas globais e muitos arquivos foram destruídos. Os dados possíveis têm por base trechos de artigos de jornais, principalmente da imprensa sindical. Além do que, há os inúmeros depoimentos de participantes e observadores do conflito.
Nas empresas coletivizadas, o diretor era substituído por uma comissão eleita, composta por membros dos sindicatos. O diretor podia continuar trabalhando em sua ex-empresa, porém com um salário igual ao dos outros empregados. A atividade de alguns setores, como o da madeira, foi unificada e reorganizada, da produção à distribuição, sob controle do sindicato. Na maioria das empresas de capital estrangeiro (tais como a telefônica, algumas grandes metalúrgicas, de indústria têxtil e agro-alimentares), caso o proprietário fosse norte-americano, inglês, francês, alemão ou belga, ele continuava oficialmente no seu cargo, para
negociar com as democracias ocidentais, enquanto uma comissão operária cuidava da administração da empresa. Não sendo coletivizados, os bancos perderam grande parte de sua autonomia para o governo. Este, por seu lado, passou a dispor de um importante instrumento de pressão junto às empresas coletivizadas, das quais conhecia as dificuldades financeiras.

Critérios heterogêneos
"Foi seguramente a primeira vez na minha vida em que me encontrava numa cidade onde a classe operária havia tomado o poder", escreveu George Orwell O modo de organização do sindicato acabou inspirando os setores socializados: uma comissão de fábrica eleita em assembléia pelos trabalhadores, um comitê local composto pelos delegados das comissões de
fábrica da região, um comitê regional e um comitê nacional. Em casos de conflito a nível local, a assembléia plenária dos trabalhadores deliberava; em casos de conflito a nível mais elevado, a deliberação era tomada por assembléias de delegados ou pelos congressos. Por sua presença e por sua força, a CNT detinha, de facto, o poder na Catalunha. O funcionamento das empresas coletivizadas era bastante heterogêneo. Na empresa ferroviária da Catalunha, por exemplo, onde o conjunto dos assalariados ganhava 5.000 pesetas por ano — e onde o pessoal da área técnica desempenhava um trabalho aparentemente menos importante —,
decidiu-se, no entanto, que estes receberiam uma remuneração suplementar de 2.000 pesetas por ano. Em 1938, no setor da construção civil, enquanto o salário único fora implantado em Lérida, em Barcelona um engenheiro continuava ganhando dez vezes mais que um manobrista. A indústria têxtil, uma das mais importantes da Catalunha, adotou a semana de quarenta horas, reduzindo a diferença salarial entre técnicos e operários, e suprimiu a
parte pesada do trabalho feminino na produção — mas a diferença salarial entre homens e mulheres foi mantida na maioria dos casos.

Um "neo-capitalismo operário"
Um jovem empresário norte-americano, arruinado pela revolução, continua simpatizando com os anarquistas, admirando-os pelo desprezo que têm pelo dinheiro Com o passar dos meses, e apesar dos esforços das empresas coletivizadas para modernizar a produção, a situação foi piorando. No setor econômico-financeiro, como aliás nos outros, a guerra devorava a
revolução. Faltava matéria-prima e os portos de escoamento da produção se tornavam cada vez mais raros, à medida que avançavam os militares insurrectos. Por outro lado, devido ao esforço que se concentrava na indústria militar, a produção entrou em colapso nos outros setores, acarretando uma explosão de desemprego na área técnica, , penúria de bens
de consumo, carência de divisas e uma inflação galopante. Diante disso, nem todas as empresas coletivizadas estavam em igual situação. No fim de dezembro de 1936, uma declaração indignada do sindicato dos madeireiros reivindicava "uma caixa comum e única para todas as indústrias para que a divisão seja eqüitativa. O que não podemos aceitar é que hajam empresas coletivizadas pobres e outras ricas". 9 Um artigo publicado em fevereiro de 1938 dá a dimensão dessas disparidades: "As empresas coletivizadas pagam 120, no máximo 140 pesetas por semana, e as coletividades rurais 70, em média. Enquanto isso, os operários da indústria de guerra ganham 200, ou até mais, por semana." 10 Essas desigualdades chegariam a levar alguns revolucionários a denunciar a ameaça de um "neo-capitalismo operário". 11

Coletivização espontânea
O movimento da coletivização pode ter envolvido de 1,5 milhão a 2,5 milhões de trabalhadores: não há estatísticas e muitos arquivos foram destruídos Em outubro de 1936, a Generalitat (governo catalão) homologou, por decreto, a existência das empresas coletivizadas, tentando fazer um planejamento de suas atividades. Decidiu nomear "controladores" governamentais nas empresas coletivizadas. Com o enfraquecimento político
dos anarquistas, estes iriam acabar servindo para que o Estado retomasse o controle da economia.
Sem que a palavra de ordem partisse de "qualquer pessoa, de qualquer partido ou de qualquer organização", 12 as coletividades agrárias também se formaram. A coletivização fez-se mais presente nas grandes propriedades, cujos donos haviam fugido para a zona franquista ou tinham sido sumariamente executados. Em Aragão, onde os milicianos da coluna Durruti 13 incentivaram o movimento desde o final de julho de 1936, a federação das coletividades, que abrangia praticamente a totalidade das aldeias, reunia meio milhão de camponeses.

O ódio pelo dinheiro
Reunidas na praça central da aldeia, as escrituras das propriedades agrárias eram queimadas. Os camponeses davam às coletividades tudo o que possuíam: terra, instrumentos de trabalho, animais etc. Em algumas aldeias, o dinheiro foi abolido e substituído por bônus. Estes bônus não constituíam moeda: não permitiam a compra de meios de produção, mas apenas
de bens de consumo — e numa quantidade limitada.
Nas empresas coletivizadas, o diretor podia continuar trabalhando em sua ex-empresa, porém com um salário igual ao dos outros empregados O dinheiro guardado para ajudar o comitê foi utilizado para comprar, no exterior, produtos em falta, que não dava para trocar. Em visita à coletividade de Alcora, uma aldeia relativamente grande, de 5 mil habitantes, Kaminski, um
historiador simpatizante dos anarquistas alemães, fez a seguinte observação: "Eles detestam dinheiro, querem aboli-lo pela força ou pelo anátema (mas) a porcaria continuará valendo enquanto o resto do mundo não seguir o exemplo de Alcora."

Educação e cultura para todos
Os comunistas cometeram um erro ao denunciarem um "terror anarquista". A adesão à coletividade, entendida como um meio de vencer o inimigo, era voluntária. Os que preferiam a fórmula da exploração familiar continuaram trabalhando suas terras, porém sem o direito de explorar o trabalho alheio nem o de se beneficiarem dos serviços coletivos. Aliás, as duas formas de produção muitas vezes coexistiram — não sem conflitos — na Catalunha. A
coletivização permitia evitar a divisão de terras e modernizar a sua exploração.
Os agricultores, que alguns anos antes quebravam as máquinas em protesto contra o desemprego e os baixos salários, foram os primeiros a utilizá-las, para aliviar suas tarefas. Foi desenvolvido o uso de fertilizantes e a avicultura, os sistemas de irrigação, as fazendas-piloto
e os meios de comunicação. Na região de Valência, foi reorganizada, sob controle dos sindicatos, a comercialização de laranja, cuja exportação era uma fonte considerável de divisas. As igrejas que não haviam sido queimadas, foram transformadas em edifícios públicos: entrepostos comerciais, espaços de reunião, teatros ou hospitais. E como o credo
anarquista fazia da educação e da cultura as bases da emancipação, escolas, bibliotecas e círculos culturais foram criados mesmo nas aldeias mais atrasadas.

Remuneração restrita
Em outubro de 1936, o governo catalão homologou, por decreto, a existência das empresas coletivizadas, tentando fazer um planejamento das atividades A assembléia geral de camponeses elegia um comitê administrativo, cujos membros não recebiam qualquer tipo de vantagem material. O trabalho era feito em equipes, sem chefe, cuja função fora extinta. Os conselhos municipais muitas vezes se confundiam com os comitês, que constituíam, de
fato, os órgãos de poder local. De maneira geral, o modo de remuneração era um salário-família — que podia ser na forma de bônus, onde o dinheiro tivesse sido abolido.
Em Asco, na Catalunha, por exemplo, os membros das coletividades recebiam
um carnê-família. No verso do carnê, havia um calendário onde eram assinaladas as datas da compra de víveres, que só podiam ser entregues uma vez por dia nos diferentes centros de abastecimento. Os carnês eram de várias cores, de forma a permitir que fossem facilmente identificados por quem não soubesse ler. A coletividade remunerava professores, engenheiros
e médicos, cujos tratamentos eram gratuitos. 14

Comunistas com a direita católica
Este modo de funcionamento também tinha momentos de mal-estar e contradições. Kaminski conta, por exemplo, como, em Alcora, um jovem que queria visitar sua noiva, que morava numa aldeia vizinha, tinha que obter a autorização do comitê para trocar seus bônus por dinheiro, para poder pagar a passagem de ônibus. A concepção ascética que os anarquistas tinham da nova sociedade fazia muitas vezes lembrar a velha Espanha, puritana e
machista. Talvez venha daí, inclusive, o paradoxo do salário-família, que deixava "o ser humano mais oprimido da Espanha, a mulher, sob total dependência do homem". 15
Em Aragão, onde ficou a coluna Durruti, a federação das coletividades abrangia praticamente a totalidade das aldeias e reunia meio milhão de camponeses As empresas coletivizadas iriam desentender-se com as forças políticas hostis à revolução, inclusive aliados dos republicanos. Enfraquecido em julho de 1936, o Partido Comunista da Espanha (PCE) iria crescer de importância com a ajuda soviética. Adotou a estratégia, pregada
por Moscou, de uma aliança com a pequena e média burguesia contra o fascismo. Na Costa Leste, por exemplo, o ministro da Agricultura, Vincente Uribe (comunista) não hesitou em confiar a comercialização da laranja a uma organização que, além de inimiga do comitê sindical, havia tido vínculos, antes da guerra, com a direita católica, regionalista e
conservadora.

Sem deuses nem senhores
Após as sangrentas jornadas de maio de 1937 — quando comunistas e o governo catalão tentaram, desencadeando uma série de choques nas ruas de Barcelona, tomar as posições estratégicas ocupadas pelos anarquistas e pelo Partido Operário de Unificação Marxista (POUM, semi-trotskista) - o governo central anulou o decreto de outubro de 1936 sobre a coletivização e assumiu, de forma direta, a defesa e a polícia na Catalunha. Em agosto
de 1937, as minas e as indústrias metalúrgicas passaram a ser controladas exclusivamente pelo Estado. Nesse mesmo momento, tropas comunistas comandadas pelo general Lister tentavam desmantelar, através de ações terroristas, as terras coletivizadas em Aragão. Reduzidas e sitiadas por todos os lados, elas conseguiriam no entanto sobreviver até a chegada das tropas franquistas.
"Eles detestam dinheiro, querem aboli-lo pela força ou pelo anátema", escreveu Kaminski, um historiador simpatizante dos anarquistas alemães Quando ministros anarquistas foram empossados pelo governo republicano, Kaminski evocava os riscos da "eterna traição do espírito pela vida". A vitória do general Franco pôs fim a essas questões. Revestida de vermelho e negro, a Espanha libertária entrou para a história, sã e salva das desilusões deste século. Houve um dia em que um povo, sem deuses nem senhores, fez fogos de artifício com notas de banco. Nestes tempos em que o dinheiro é soberano, eis aí algo para aquecer os espíritos.

Le Monde Diplomatique : novembro de 2000, Edição brasileira, ano 1, número 10, traduzido por Jô Amado.

* Frédéric Goldbronn é diretor de cinema; Franck Mintz é historiador, autor de L’autogestion dans l’Espagne révolutionnaire, ed. La Découverte, Paris, 1976.
1 "Anarchiste" é o nome do último lançamento de um célebre fabricante de perfumes parisiense.
2 Patricio Martínez Armero, citado por Abel Paz, A Coluna de Ferro, ed. Libertad-CNT-rp, 1997.
3 A Coluna de Ferro foi um batalhão de milicianos anarquistas que se tornou célebre pelo papel que nela tiveram os presos que libertavam. Agiu principalmente na frente de Teruel.
4 Moção do Congresso de Zaragoza, maio de 1936, brochura.
5 Ler, de Carlos Semprun Maura, Revolução e Contra-revolução na Catalunha, Editions Mame, Paris, 1974.
6 Ler, de George Orwell, Homenagem à Catalunha, ed. Champ libre, Paris, 1982.
7 Ler, de Franz Borkenau, Spanish Cockpit, ed. Champ libre, Paris, 1979.
8 Ler, de Frank Mintz, Autogestão e anarco-sindicalismo, Editions CNT, Paris, 1999.
9 Ler Carlos Semprun Maura, op. cit.
10 Artigo de Agustín Souchy, em Solidaridad Obrera (jornal da CNT), fevereiro de 1938.
11 Ler, de Gaston Leval, Espanha libertária, Editions du Cercle e Editions de la Tête de feuille, Paris, 1971.
12 Ler, de Abad de Santillan, Por que perdemos a guerra, ed. Iman, Buenos Aires, 1940.
13 Nascido em 1896, dirigente da UGT e depois da CNT, em 1936
Buenaventura Durruti liderou uma milícia que teve um papel importante nos combates de Barcelona, depois em Aragão, e finalmente na frente de Madri, onde, a 20 de novembro, ele seria mortalmente ferido em circunstâncias ainda controvertidas.
14 Ler, de H. E. Kaminski, Os de Barcelona, Editions Allia, Paris, 1986.
15 Ibid.